A propósito de George W. Bush

November 18th, 2008

Poderá não ser das coisas mais hilariantes com que nos deparamos; poderá não ter a crueza e o calculismo de um haraquiri, mas marca, sem dúvida, uma posição.

Já publicada aqui no blogue, esta fotografia retrata a etiqueta de uma peça de vestuário exportada para França por uma fábrica têxtil americana..

Ela reflecte o paradigma da era Bush. Espelha, de forma subliminar, o clima de descontentamento que se vivia, reverbera o anseio de mudança.

Parafraseando Idelbar Avelar, que se referia ontem a esses tempos no seu blogue Biscoito fino e a Massa, foi a pior – a mais mentirosa, fiscalmente irresponsável e belicamente criminosa — presidência da história dos Estados Unidos.

etiqueta

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depaisagem

Um destes dias, por acaso ― e não deixa de ser curioso como estas coisas acontecem quase sempre por acaso ― dei comigo perante um blogue, Saco de Filó, em que o autor, o brasileiro Marcelo Leite, professor universitário, vai desfiando, numa linguagem simples, quase transparente, histórias e vivências do seu dia-a-dia.

Da leitura de algumas delas, retive «De paisagem, de janelas e de culpados», não sei se crónica se história, que nos transporta para uma realidade cruel que aqui, neste canto da Europa, nos passa completamente ao largo, por despercebida, e nos dá conta das contradições e incongruências de quem, tendo por obrigação entender as causas da situação, está desatento a essa mesma realidade.

Mas nada melhor para se compreender o que se passa do que ler o texto.

Jonyedson tem 10 anos, mora numa favela na zona norte do Rio que é dominada, metade por traficantes, a outra metade por milicianos (nesse caso, um acordo de cavaleiros raro no ramo). Na escola dele, dois garotos, aviõezinhos do tráfico, foram executados porque tentaram passar a perna nos bandidos. Suspenderam as aulas no dia. Ordem do chefe da boca. Sua mãe, diarista, sustenta 6 filhos e, vez por outra, registra queixa na delegacia de proteção à mulher contra seu ex-marido que invade o barraco embriagado. Ele a espanca e toma-lhe os parcos trocados que recebe. Logo após, retira a queixa com medo de represálias de amigos do ex, todos ligados ao movimento no morro. Jonyedson assiste a tudo debaixo da cama para não apanhar também. Hoje de manhã, Jonyedson teve que esperar mais de 1 hora para sair de casa por causa de um tiroteio do pessoal da boca com os homens do BOPE. Na calçada, quando saiu, já estava aquela montoeira de sacos pretos cobrindo o que sobrou da ação.

Mas naquela manhã algo mudou. A mãe de Jonyedson foi chamada às pressas à escola. Por causa de uma discussão com um coleguinha de sala, seu filho empurrou uma cadeira e o menino caiu ralando o braço na altura do cotovelo.

O comportamento agressivo dele preocupou a orientadora pedagógica, psicopedagoga com formação também em sociologia, que pediu à mãe que cortasse os desenhos japoneses que passam na TV, pois eles são os principais responsáveis pela “explosão de violência” do garoto.

A mãe, então, passou a guardar a pequena TV em preto e branco do Paraguai adquirida em um camelô em cima do armário.

***

Quando fica em casa, Jonyedson passa as horas debruçado na janela vendo as pipas que sobem quando os PMs chegam.
Isso quando não tem tiroteio.

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E se Obama fosse africano?

November 15th, 2008

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Mia Couto, cuja sombra costuma esvoaçar livremente sobre as minhas cada vez mais frequentes incursões na literatura de África, acaba de publicar no semanário «A Savana» de ontem, transcrito no «Moçambique Online», um curioso exercício de escrita, a propósito da eleição do candidato democrata à presidência dos Estados Unidos da América, que intitulou «E se Obama fosse africano?».

Neste texto, Mia Couto aproveita para, depois de denunciar as falsas democracias que se vivem em muitos países africanos ― consubstanciadas nomeadamente na permanência no poder durante várias décadas de um bom número de chefes de Estado ―, chegar à conclusão que, nesta África de hoje, não se encontram reunidas as condições para que um homem com um perfil como o de Obama pudesse vir a ascender ao poder. E justifica.

Pelo seu interesse, deixo-o aqui transcrito.

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Mamã África

November 10th, 2008

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Lembro-me de a ter visto cantar há mais de uma vintena de anos em Lisboa. Era o canto de uma África ainda agrilhoada, num Portugal que, esperançoso, aprendia a reencontrar-se com a liberdade.
Ela, Miriam Makeba, a voz de uma África do Sul dividida pelo preconceito, fechada pela ignomínia da separação racial.
Morreu ontem, aos 72 anos, em Itália, após um concerto.

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Obama

November 5th, 2008

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Se outras virtudes esta eleição não tivesse ― e teve-as, certamente ― ela coloca-nos perante o quase estranho facto de vermos um negro eleito, através de escolha livre e consciente, para a presidência dos Estados Unidos da América. Apenas a cinquenta anos de distância do termo da discriminação racial naquele país.
Basta isso para ser História.

A «nacionalização» do BPN

November 2nd, 2008

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A notícia que abalou este domingo foi, inquestionavelmente, a intenção do Estado intervir no Banco Português de Negócios, nacionalizando-o e entregando à Caixa Geral de Depósitos a sua gestão.

Era do conhecimento mais ou menos público da gestão danosa que a anterior administração chefiada por Oliveira e Costa, antigo Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais de Cavaco Silva, tinha levado a cabo, através de investimentos de regularidade mais que duvidosa, contabilidade paralela e à margem de toda a legalidade ― conforme revelou hoje o governador do Banco de Portugal Vítor Constâncio ― que conduziu o banco ao actual passivo de 700 milhões de euros, e que o iria forçar, a curtíssimo prazo, a não poder honrar as suas responsabilidades, nomeadamente para com os seus clientes.
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Que dragão é este?

November 2nd, 2008

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De vez em quando dá-me um certo prazer falar sobre futebol. Sem grandes profundidades, preocupações estilísticas ou proficiências, acrescente-se. Como se verá, aliás, adiante.

O Porto voltou a perder. Desta vez 1-0 contra o Naval 1º de Maio. Jesualdo Ferreira, o treinador, disse ontem, depois do jogo acabado e para quem o quis ouvir, que o seu lugar não estaria em causa.

Esquecerá Jesualdo, em que mundo é que estamos? Esquecerá Jesualdo que, logo após ter perdido o primeiro jogo para a Taça dos Campeões, já muita gente lhe começou a fazer a cama e a extrair-lhe a raiz quadrada? O que para mim, diga-se de passagem, tanto se me faz como se me fez, pois não sou fêcêpê, nem tão-pouco vou muito à bola com o futebol.

O que me parece é que Jesualdo, embarcado que foi, desde cedo, na auto-suficiência e arrogância que neste últimos anos tem sido apanágio de muita gente ligada ao clube das Antas, do dragounhe, ou lá o que é, julga que em futebol aquilo que é valido para hoje, tem necessariamente de o ser para amanhã.

Não se cuide não, que por este andar ainda vai treinar o Mogofores, o Famões ou até o Mafamude Futebol Clube.

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Editado pela primeira vez em 2004 pela Knowledge Unlimited Inc., de Nova Iorque,este poster intitulado em inglês «The only 12 ½ wrinting rules you’ll ever need» cedo se tornou uma referência para todos aqueles que começam a escrever. São, no fim de contas, uma espécie de 12 mandamentos e meio, para quem se decide trilhar os nem sempre fáceis, mas sempre estimulantes, caminhos da escrita. Estão agora aqui traduzidos para quem estiver interessado em segui-los.

Éden, Luxúria, Cacau

October 28th, 2008

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Diz quem sabe que de São Tomé e Príncipe vem o melhor cacau. Apesar de ser um apreciador do produto sob qualquer forma e em quaisquer condições ― com tempo seco ou húmido, de costas, barriga para o ar, em taça, creme, barra, em soufflé ― não sei se sim ou se não. Mas faço fé e acredito.

Há por esse mundo fora, porém, muita gente entendida que faz questão de o clamar aos quatro ventos e, mais ainda, de com ele fazer coisas que proporcionam verdadeiras orgias às papilas gustativas, fazendo-nos repudiar liminarmente a ideia de um mundo sem cacau, e que nos transportam até às margens de desconhecidos édenes de luxúria, sensualidade e lascívia onde nos apetece submergir, exclamando, rendidos a tamanha hecatombe de prazeres «pois então se é para morrer, que seja».

No número bastante restrito desses «manipuladores» dos sentidos está Enric Rovira, um já prestigiado chocolateiro catalão, de Barcelona, cujo site, que incito a verem, para além da concepção gráfica de uma sobriedade irrepreensível e esteticamente apelativa em que assenta, introduz-nos a um universo ― do qual normalmente andamos arredados ―, em que nos é mostrado o cacau no mais sublime dos seus esplendores e sob as formas mais irrecusavelmente tentadoras.

A matéria-prima que utiliza é, evidentemente, o cacau de São Tomé ― produção da roça Terreiro Velho na Ilha do Príncipe, da responsabilidade do italiano Cláudio Corallo ―, e um dos seus novíssimos sabores chama-se «Guindilla», combinando exactamente a guindilha, um tipo menos comum de malagueta, com o cacau, numa mistura que se adivinha explosiva.

Só se lamenta, eu lamento, que a Portugal nem sequer o cheiro chegue. Por enquanto, espero.

Os «Senhores» Doutores

October 26th, 2008

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De São Tomé e Príncipe chegam notícias a acusarem o novo Ministro dos Recursos Naturais, Energia e Ambiente, Carlos Fernandes Marques, licenciado em Gestão pela Pacific Western University (PWU), dos Estados Unidos, e com o mestrado em Administração e Direcção de Empresas, de ter comprado o diploma.

Até aqui nada de estranho a assinalar, a não ser o bizarro facto de a PWU ser acusada de vender títulos académicos, e ser englobada, portanto, naquilo a que o governo dos Estados Unidos chama de «diploma-mills» que é a designação genericamente dada a escolas que estão mais interessadas em tirar dinheiro de quem delas se socorre, do que a providenciar educação com um mínimo de seriedade e qualidade. E pelo que consta, a PWU, a quem o governo do Estado do Texas, por exemplo, não apenas não reconhece os seus diplomas como os considera ilegais, nem consta em qualquer lista do governo federal como escola superior acreditada, será uma entidade mais vocacionada para o comércio de diplomas que para o ensino.

Faço aqui um parêntesis, que poderá ajudar a perceber a apetência por parte de determinada casta de indivíduos por títulos académicos e que, por ostentação ou vaidade, precisam de um diploma para se poderem movimentar com maior conforto ― e desaforo, acrescente-se ― entre os seus pares, para aprofundar o conceito de «diploma-mills», conforme consta da página do governo norte-americano: é uma instituição de estudos superiores exercendo a sua actividade sem a supervisão de um Estado ou Organismo Profissional, que emite diplomas que, ou são declaradamente falsos, ou outorgam habilitações sem qualquer utilidade prática.

Não se pense, contudo, que o novo Ministro Carlos Fernandes Marques se encontra sozinho nesta fornada de licenciados pela Pacific Western University. Segundo o jornalista João Ramos, também o ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros, Ovídio Pequeno, recorreu à PWU para ver passado o seu grau académico.

Esta onda de revelações e suspeitas, onde não se sabe quem é quem e acima de tudo quem é o quê, parece também atingir o Primeiro-Ministro Rafael Branco, com muito boa gente a questionar-se sobre a veracidade das suas habilitações literárias.

Nesta missa, que ainda vai a santos, corre-se o risco de ter de se excluir muita alma de Cristo de participar na comunhão.